sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O trabalho social que dá certo.

“Eu não vejo a hora de vir trabalhar, adoro tudo isto”.
Isto não é parte de um diálogo entre um chefe e seu funcionário, ou um empregado recém-contratado.
Simone trabalha na Vivenda da Criança. Dá para entender por que.
Aos 50 anos de idade, a irmã Yvone Venditti, freira da congregação das irmãs Felicianas de Curitiba veio a São Paulo com um sonho. Tirar crianças da rua, salvando-as das drogas e da violência.
Com ajuda de muitos amigos, ela conseguiu comprar um terreno em Parelheiros, uma região com classificação de altíssimo risco social. Inicialmente ela com a ajuda de uma assistente, cuidavam de 12 meninos. Levava para escola, dava comida, cuidava da casa, reforço escolar, pagava contas, direcionamento e conceitos morais, enfim tornou-se uma mãe tanto para as crianças como para suas famílias. O trabalho que começou para cuidar de 12 crianças abandonadas, hoje abrange um universo de mais de 4 mil pessoas!
Mas o grande sucesso desta obra, é que ela envolve a criança por todos os lados. Procura dar condições de alimentação, educação e lazer para as crianças, capacitação profissional para os jovens e para os pais e ainda se envolve no ambiente familiar.
Enquanto as crianças ficam na Vivenda no período em que não estão na escola, elas tem alimentação, lazer, auxílio nos estudos, atividades lúdicas e muito carinho. No outro lado, jovens , pais e mães, frequentam cursos profissionalizantes como padeiro, manicure, cabeleireiro, costura e muito mais. Os jovens são encaminhados para empresas através de convênios como o jovem aprendiz. Mas nem só de pão vive o homem, então eles tem oficinas de música e outras atividades culturais.
Tudo isto ocorre dentro dos limites físicos da Vivenda, mas não para ai. Oito agentes vão a campo visitar as famílias, as condições de suas casas. Condições físicas e estruturais, de higiene, hábitos e também emocionais, violência doméstica, alcoolismo, etc. E lutam em todas estas frentes.
Cada agente cuida de 150 famílias!
E apesar de conviverem com um ambiente de muito trabalho e dramas humanos, onde derramam-se muitas lágrimas todos os dias, o lugar é alegre, as pessoas são felizes.
Devido ao trabalho que desenvolvemos, vivenciamos muitos dramas diariamente. Jovens que estavam sendo atendidos e foram assassinados, mulheres que mesmo sendo espancadas por seus maridos não tem outra escolha, pois vivem em um mundo séculos atrasado, crianças abusadas por padrastos, pais, tios, etc. Instituições que realizam apenas um trabalho pontual e esquecem do redor, do ambiente em que as crianças e os jovens vivem.
E visitar lugares assim são um verdadeiro refrigério para alma.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Minoria Esmadora

De uns tempos para cá aderi de corpo e alma no combate ao mega-projeto Usina hidroelétrica de Belo Monte. Não é minha intenção fazer apologia ao movimento neste artigo, mas também não posso deixar de citar meu ponto de vista em relação a isto, até porque esta questão e seus acontecimentos tem me levado a profundas reflexões.
Em um recente debate promovido pela nossa querida Mirian Leitão, dois especialistas se digladiaram. Mas debateram do ponto de vista econômico.
A questão é:
Quanto vale a vida?
Eu tenho filhos, e não os venderia por nenhum dinheiro deste mundo.
Como também não vendo o futuro deles, sou contra Belo Monte.
Mas vamos voltar alguns dias. No dia 4 de fevereiro de 2011, marcamos a primeira manifestação nacional contra Belo Monte. Bem da verdade acho que quem começou com esta história talvez tenha sido eu. Bom talvez.
O fato é que eu e o André fomos juntos ao local da manifestação em São Paulo, na avenida JK. No caminho ele me perguntou quantas pessoas estariam lá. Ao que respondi que se estivessem meia dúzia me daria por satisfeito.
Chegamos lá e nada, ninguém. Cada pessoa que ia chegando de preto ficávamos encarrando para ver se fazia parte da manifestação, nada. Mais alguns minutos foram chegando algumas pessoas. Gabriela, Carol e seu marido (desculpa cara, não me lembro do seu nome), Lara e Yuri, Verônica, Patricia, Gustavo (não se se este conta estava a trabalho hehehe, conta sim estou brincando) e o fotógrafo, ambos do Jornal Estado de São Paulo e outros (novamente desculpe pena falta de memória para nomes, mas tenham certeza meu coração não há de esquece-los).
Enfim nos juntamos a porta do Financial Center, ao que o segurança passou um aviso pelo rádio na hora. Conversamos, trocamos idéias, às vezes uma pequena frustração por sermos tão poucos. Mas no fim das contas formamos uma "minoriaesmagADORA".
Pudemos nos nutrir espiritualmente uns dos outros. Ninguém desanimou, muito pelo contrário ficamos mais motivados para continuar a luta.
Era neste ponto que eu queria chegar.
Apesar de poucos pudemos nos "nutrir espiritualmente" uns dos outros.
Neste comensalidade de alimentarmos nossos sonhos mutuamente nos tornamos realmente uma MINORIA ESMAGADORA. Não sabemos se vamos ou não realizar nosso intento de salvar a floresta amazônica, mas nossa humanidade com certeza já está salva.
Quer salvar a sua?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

PENSAMENTO SISTÊMICO OU HOLÍSTICO

Pensamento sistêmico é pensar no todo e não apenas na parte. É ter visão panorâmica.
Quem tem pensamento sistêmico não generaliza, mas considera cada caso. Olha o processo e não parte dele.
Quem tem pensamento sistêmico olha para o presente, passado e futuro.
É pensar de forma não linear. É não pensar apenas no aqui e agora, mas nas conseqüências, nos resultados e nas razões.
É não agir sempre por impulso, pela paixão e pela emoção. Mas também não é agir só pela razão. É agir com razão e paixão.
É não pensar apenas no “próprio nariz”, mas considerar os outros, todos os outros e a si mesmo.
É não se esquecer que não se está sozinho no mundo.
Algumas situações onde costumeiramente se deixa de pensar de forma sistêmica:
- Os criminosos. Só se olha o crime e não as situações psicológicas e sociais que levaram o indivíduo a cometer o crime. A conseqüência é o desprezo pelos direitos humanos dos presos, a aceitação de pena de morte como sendo solução para o problema da criminalidade. São soluções de idéias reduzidas e simplórias, para se livrar do problema. Um pensamento sistêmico estabelecerá projetos de educação, combate a pobreza, consciência social, trabalho de recuperação, tratamento psicológico, etc.
- Transporte clandestino. Uma reportagem na Rede Record mostrou que há um grande número de ônibus clandestinos fazendo viagens pelas estradas do Brasil por tarifas mais baratas. A opinião dos jornalistas, foi simplista e linear, pois disseram simplesmente que a solução seria fiscalizar e prender os responsáveis. Ora, deve-se perguntar porque pessoas compram essas passagens mais baratas? Porque esses motoristas trabalham dessa forma esses ônibus em péssimas condições? Existem outras alternativas. Perceba que quando fazemos perguntas do tipo “por quê”, ou seja quando procuramos as reais razões, estamos pensando de forma sistêmica ou holística, ou seja procurando cobrir todos os lados antes de oferecer um julgamento e respostas simplistas.
- Maridos e Esposas. Se cônjuges pensassem de forma sistêmica, as brigas poderiam ser evitadas. Pois normalmente nessas horas, cada um só olha o seu próprio pedaço e tenta defendê-lo com unhas e dentes sem pensar na situação do outro. Já percebemos por aqui que pensar de forma sistêmica não é tão fácil, faz a gente entrar em conflito consigo mesmo. Nossa natureza parece sempre tender mais ao egocentrismo.
                Na empresa, precisamos começar a pensar de forma sistêmica:
- Departamentalização. A cultura de “bairrismo” impera em muitos setores. Pessoal do comercial não se atenta para as questões fiscais. Não olha o todo: empresa-cliente-governo-o povo-imagem-colega da área fiscal-família do colega-etc.
- Defender o meu “cargo”. Estamos tão afoitos em defender o próprio cargo que nos esquecemos da razão pela qual nosso trabalho existe como parte do um todo da companhia, que no final das contas precisa atingir seus objetivos, que por sua vez contribui para todos os colaboradores atingir os seus objetivos.
- Lucro acima de tudo. Ter lucro acima de tudo, sem pensar no funcionário que é explorado, sem pensar no meio ambiente que pode estar sendo prejudicado, sem pensar no todo.
                Você já ouviu falar do “Efeito Borboleta”? Tudo o que você faz tem efeitos mundiais.
                Já vimos que não é fácil pensar sistemicamente ou holisticamente. Então o desafio é grande. O programa de espiritualidade na empresa é essa alternativa de pensar sistemicamente procurando minimizar nas relações que temos com o mundo, com os outros e conosco mesmos, os impactos de nossa desvairada ação e pensamento linear.
                Um outro risco que mencionamos apenas, referente a falta de um pensamento holístico são as famosas generalizações, que na verdade não passa de reducionismo, ser simplório. Frases do tipo: Padre é tudo pedófilo, Pastor é tudo ladrão, carioca é tudo metido, praia é tudo igual, político é tudo ladrão, etc. Mesmo que as vezes isso pareça ser verdade, é um engano da mente. Pois deixa de enxergar os que apesar de serem da mesma profissão ou de uma certa classe, deixa-se de considerar as particularidades. Então olhar o todo, é olhar também todas as partes possíveis. Daí a necessidade que temos do complexo ao invés do simplório. Veja não estou falando de simplicidade no sentido de humildade ou de viver de forma simples. Falo sobre a necessidade de se considerar toda a complexidade da vida e do universo, e isso também em todas as áreas da vida humana, inclusive numa empresa.
“Na linguagem cotidiana , uma situação complexa soa como confusa e difícil de resolver. Evoca uma realidade cheia de dobras, nas quais escondem variáveis difíceis de serem compreendidas. Confunde-se complexidade com complicação, algo que não é fácil de explicar nem de resolver.” (AFONSO MURAD – GESTÃO E ESPIRITUALIDADE – EDITORA PAULINAS – PG.178)
                Murad também explica a etimologia da palavra “complexo” que origina-se do latim “complectere”. A raiz “plectere” significa trançar, enlaçar. Remonta ao trabalho de fazer cestas. O sufixo “com” acrescenta o sentido de dualidade dois elementos opostos que se enlaçam intimamente. Ou seja o pensamento complexo lida com conflitos, com o diferente. Ainda, o perplexo, “per” significa levar ao extremo algum coisa, por exemplo “perfeição”,  não dá conta de lidar com as diferenças. Ele permanece “enrolado” nas complexidades. Pensar de maneira sistêmica é lidar com as complexidades, é ter pensamento complexo.
                No ambiente de trabalho é preciso lidar com dimensões completas, inclusive de nossa humanidade. Lidar com nosso lado material e lidar com o nosso lado espiritual. Lidar com os valores da empresa e lidar com os nossos valores pessoais. Lidar com os meus valores e lidar com os valores dos meus colegas. Lidar com os meus problemas do meu setor e com os problemas do outro setor. Lidar com coisas antagônicas. Lidar com questões econômicas e lidar com questões humanas ou espirituais. Se não nos dispomos a essa “lida” com a complexidade, fatalmente ficaremos perplexos e assim permaneceremos até por fim “morrermos”.
                Nesse sentido um grande problema do mundo pós-moderno é que ele tornou-se tão complexo, tão abarrotado de informações, que o que temos hoje são os especialistas. As escolas formam especialistas, mas não formam um ser humano integral. De fato, será necessário nos concentrarmos em uma especialidade para não nos perdermos nas infinitas opções e especialidades que existem. Faça uma busca no Google de qualquer tema e você terá uma infinidade de sites, blogs sobre o tema. Entretanto, mesmo tendo que ser especialistas não podemos perder a noção do todo, no mínimo em saber que existem visões diferentes sobre o mesmo assunto ou problema.
                Podemos então concluir que ter um pensamento holístico ou sistêmico é não perder de vista os outros pontos de vista.

André Luiz

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Por um trabalho mais humano.

Por Paulo Sanda

Agora eu vou falar.
Se você assistiu aos vídeos sobre a fábrica de jeans na China, deve estar com um gosto amargo na boca. Com certeza, há muito a se discutir sobre este assunto. Podemos criar páginas e mais páginas, livros, etc. Mas vamos por outro caminho, por enquanto.
Convoco sua imaginação agora para a seguinte cena:
Em um belo final de tarde, você sai a calçada, ou desce a área comum de seu condomínio, leva uma bebida (pode ser uma cerveja, um refrigerante, um chá enfim o que for) talvez algo para beliscar, senta-se com os vizinhos e fica conversando enquanto olham as crianças brincando. Nada de trabalho, falam sobre a vida, o tempo, contam piadas, etc. Ou quem sabe levar um violão e fazerem uma roda de músicas, recitar poemas, enfim um SARAU (para quem não sabe um evento cultural informal, as pessoas se encontram para se expressarem artisticamente).
E ai o que achou?
Talvez você tenha pensado:
Mas eu faço isto de vez em quando, pelo menos uma vez por semana.
Parabéns, você é um privilegiado, só posso dizer que, se inveja matasse eu estaria fulminado.
Mas provavelmente, deve estar achando que eu sou algum lunático:
Quem tem tempo para isto? Trabalho o dia todo, chego tarde em casa, começo a trabalhar no domingo a tarde e só para no sábado de manhã e olha lá!
Falar sobre o que? Nem conheço meu vizinho!
Não para por ai, tem muita gente que nem consegue se imaginar falando sobre outra coisa que não seja trabalho.
Pois é justamente neste ponto que eu quero tocar.
No documentário que assistimos (se não o fez, pare de ler agora e volte no meu post anterior para assistir), deve ter se revoltado com o dono da fábrica de jeans. A exploração dos funcionários, os argumentos que ele usa para se justificar e a falsidade de toda aquela estrutura que visa apenas uma coisa, dinheiro. E como bem disse o grupo Dire Straits, “money for nothing”.
Bom se ficamos revoltados com isto porque não nos revoltamos com nossa própria exploração?
Explico; em um recente artigo do jornal Folha de São Paulo (edição de 23/1/2011), Márcio Pochamann presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) diz que o descanso semanal médio que era de 48 horas baixou para 27 horas (você pode ler esta matéria na integra em http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=40165).
Sem querer entrar no mérito das razões pessoais de cada um, cabe aqui uma reflexão. Trabalhamos cada vez mais para dar conta de um desejo crescente por bens de consumo. Não adianta dizer que é para sobreviver, pois o que queremos é; manter ou subir nosso “padrão de vida”, traduzindo, manter ou aumentar nosso poder de consumo.
Nesta roda viva, escravizamos a nós mesmos, proporcionamos a exploração de outras pessoas, colaboramos ativamente na degradação de nosso planeta. Deixamos de ser humanos para sermos consumidores. Não vivemos para um projeto de vida, nossos objetivos são planos de consumo.
Não precisa concordar comigo, mas pense um pouco.
Durante este mês, quando tempo dedicou para sua família, seus amigos, trabalho voluntário, etc?
Quantas atividades de lazer sua não estão ligadas diretamente ao consumo? Ao invés de ir ao shopping center, fazer uma visita a um parente ou amigo, por exemplo.
Pensou?
Ok, vamos dar uma volta no shopping, estou de olho em um novo celular....

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Desta vez não quero dizer nada.

Parece lindo não?
Temos cada vez mais produtos de consumo ao nosso alcance. Mais e mais baratos.
Aliás estão tão baratos, que deviamos nos perguntar. Quem está pagando por eles?
Olhando a realidade retratada no documentário China Blue, podemos vislumbrar um pedacinho dos caminhos trilhados pelos nossos "sonhos" de consumo.
Você vai dizer,"mas um jeans não é meu sonho de consumo!"
Mas você acha que os outros produtos lá fabricados tem outra rota?
Temos que repensar nossa sociedade, nosso consumismo.
Não vou dizer nada por enquanto, por favor usem um tempo de suas vidas e assistam as 6 partes do documentário que coloco abaixo.




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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Mundo Corporativo: Metas ou Pessoas?

     Essa semana estive em um banco para pagar uma conta. Ao terminar de efetuar o meu pagamento o rapaz do caixa me ofereceu um serviço do tipo seguro hospitalar. Muito superficialmente ele me apresentou o funcionamento do serviço, o valor e os benefícios. Solicitei para ele o folder, a fim de que pudesse olhar com calma em minha casa. Foi quando ele me disse que precisava muito bater as metas e tinha pressa quanto a minha adesão ao plano. Pensei comigo: acabou de me perder como cliente. Senti que o rapaz estava muito mais preocupado em bater suas tais metas, pois o banco assim exigia dele, do que me oferecer um serviço que de fato atendesse as minhas necessidades. Ele simplesmente não tinha tempo para gastar comigo enquanto cliente.
     Esse acontecimento corriqueiro me fez pensar em como o mundo corporativo vem procedendo. As metas tornam-se tão imperativas que já não se presta atenção no cliente e nas suas reais necessidades.
      Um grupo de escoteiros que tiveram como meta chegar ao cume de uma montanha. Alguns com muita pressa empurravam os outros que vagarosamente subiam e paravam vez por outra para observar as coisas ao redor do caminho. Havendo o grupo todo chegado em cima do monte, o chefe faz perguntas a respeito do que puderam observar durante o caminho e como aquela experiência com a natureza lhes afetara. Obviamente aqueles que prestaram mais atenção na natureza durante o caminho, foram mais capazes de responder e assim compartliharam as maravilhosas impressões e sensações com o contato que tiveram com as plantas, as sombras das árvores, o cantar dos pássaros com seus ninhos engenhosos, e com toda a natureza em volta daquele percurso que puderam apreciar. O chefe então relata que os que ganhariam as medalhas seriam estes e não aqueles que chegaram primeiro, pois o objetivo não era chegar primeiro e sim ter experiências durante o caminho.
      Que tal se o mundo corporativo mudasse a sua lógica de atingimento de metas, por uma em que as necessidades humanas dos clientes, que são seres humanos, fossem atendidas? Que tal se pudessem ensinar isso aos seus colaboradores, ao invés de pressioná-los? Que tal se pudessem abandonar, quando se tratar de ser humano, da lógica fria da economia e da matemática financeira? Será que todos não seriam enriquecidos com os relacionamentos que seriam feitos com os clientes? Qual pessoa não desejaria ser ouvida de fato sobre as suas reias necessidades? Não se poderia dessa forma oferecer um serviço muito mais interessante ao cliente, que de fato o atendesse?
     Um dos grandes problemas do mundo corporativo tem sido a perda da visão da dimensão humana, seja ela de seus colaboradores ou de seus clientes, em favor de uma busca desenfreada por lucro e crescimento. Quando isso ocorre, quantos de fato estão ganhando? Quantos de fato na sociedade são beneficiados? E ainda, o quanto de fato o empresário está cuidando da continuidade da vida de seus negócios. Criar um ambiente e uma filosofia de gestão humanizadora no mundo corporativo é o grande desafio de hoje. Do contrário, até onde perdurarão de fato as empresas, quando os clientes começarem a perceber que tudo o que a empresa quer é bater metas e não prestar serviços que de fato atendam as suas reais necessidades? Quando falamos de espiritualidade no ambiente de trabalho, falamos disso: de um modelo de gestão e relacionamentos corporativos capazes de enxergar clientes, parceiros, colegas, fornecedores como os verdadeiros seres humanos que são em toda a sua integralidade.
      Empresas que se preocupam com sua imagem na sociedade já estão avançando nesta direção. Muitos clientes, por exemplo já verificam antes de comprar algum produto se a dona daquela marca tem políticas de sustentabilidade, projetos sociais, etc. 
     Quando estiverem com um cliente na sua frente não o olharão apenas como aquele que o ajudará a bater metas, mas como alguém que de fato é seu próximo e tem necessidades. Ambos serão beneficiados: cliente e empresa. Todavia será necessário parar, prestar atenção, gastar tempo com ele, enriquecer-se da beleza e dos conhecimentos que todo bom relacionamento traz. Que empresas hoje estão dispostas a começar a mudar essa lógica dentro de seus ambientes e de sua gestão?

André Luiz - Palestrante da Associação Ruah
Desenvolvimento Integral do Ser Humano


    

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Espiritualidade na Pós Modernidade

Vivemos na chamada era pós-moderna. Esse é o tempo que caracteriza-se pela pluralidade e a conseqüente relativização. Diferenciamos do modernismo onde a crença era a de que a verdade poderia ser encontrada unicamente através da ciência. Porém nesse novo tempo o que se propõe é que não existe uma só verdade, mas sim várias maneiras de interpretar o mundo em que vivemos. O pós-modernismo não precisa ser encarado como um mero ceticismo a respeito de tudo, mas pode ser visto positivamente como a maneira de entender as outras maneiras de ver o mundo. O que já não cabe mais nessa era são os ortodoxismos e dogmatismos engessados das velhas instituições religiosas, científicas, filosóficas, políticas, etc. Entretanto, isso não quer dizer que a ortodoxia precise ser jogada fora, mas pode ser humildemente encarada como mais uma das muitas possíveis interpretações de um mundo e humanidade tão complexos. A tradição terá sua validade sempre que estiver em constante diálogo com outras tradições e aberta a reconstrução e re-significação.
É pensando nisso, que eu tenho chegado a conclusão que uma concepção de espiritualidade precisa estar em conexão com esse novo tempo da humanidade. Este, também chamado de “era da informação”, não é mais o tempo de conhecimentos e pessoas isoladas. Quer queiramos ou não, não estamos sozinhos, além de toda a tecnologia que nos conecta ao mundo inteiro, temos em nossas mãos todo legado de conhecimento como a história, a filosofia, a ciência, a sociologia, a religião, etc. que não nos deixa margem para pensarmos isoladamente. Mas com todo esse acúmulo de saber herdado somada a inescapável conexão com o mundo, com os outros povos, com o diferente; ficamos obrigados a reformular toda nossa vivência a partir dessa perspectiva globalizada e interdisciplinar. Isto não quer dizer que temos que nos tornar em seres despersonalizados, padronizados sem nenhuma identidade própria que nos diferencie. Apesar de tudo isso nos levar a considerar nossas igualdades e diminuir o conflito das nossas diferenças, entendo que podemos e devemos sim manter nossas singularidades, entretanto o que já não é mais possível é termos atitudes de intolerância para com as singularidades dos demais. Neste caso, o diálogo deverá ser o mecanismo mediador que protege a identidade, mas que ao mesmo tempo nos tornará capazes de rever nossas certezas absolutas.
Uma espiritualidade que considera essas premissas fundamentais, forjará seres humanos habilitados a agir amorosamente com o seu próximo, seja ele diferente ou semelhante.  Cultivar espiritualidade na pós-modernidade é se relacionar com os aspectos imateriais que dão significados de existência ao ser humano dentro de sua própria identidade ou tradição ou a partir dela, mas sempre aberto a dialogar com o diferente. A vantagem em relação ao modernismo, é que agora não somos mais os donos da verdade, mas reconhecemos que nossa verdade é uma das muitas verdades possíveis.
Até agora eu me utilizei de termos gerais para tratar do tema de espiritualidade na pós-modernidade, sem entrar em situações específicas. Eu diria que o uso da abstração é proposital para permitir que o leitor possa ele mesmo fazer a aplicação que lhe convier. Mas o que proponho no presente artigo é uma maneira de lidar com nossos significados sejam eles mediados pela religião, pela mística ou pela nossa maneira de lidar e enxergar a vida e tudo o que fazemos e somos. É preciso que, seja lá qual for a nossa (des)crença espiritual, pensemos como habitantes do mesmo planeta, membros da mesma comunidade. O individualismo e materialismo, que imperam também nessa era, nos encaminharão para nossa auto-aniquilação. É preciso mudar, ou os seres humanos vão entrar em extinção. Exemplos disso estamos vendo diariamente nos jornais: guerra, fome, destruição do meio ambiente, aquecimento global, morte de inocentes. A vida humana tornou-se sem valor para os próprios seres humanos, porque matamos uns aos outros.  Os fundamentalismos não nos ajudarão, só acelerarão esse nosso processo suicida. A utopia de um projeto de espiritualidade é fazer com que todos os homens sejam capazes de amar uns aos outros, de dar a vida uns pelos outros, sem matar e sem morrer. Paradoxal? Talvez. Mas é nossa única chance de sobreviver.

André Luiz Alves da Silva