terça-feira, 5 de abril de 2011

Esperando por uma condenação histórica.

                Um dia numa aula de teologia da missão urbana.
                A aula ia bem, o professor desenvolvia o tema sobre os paradigmas da civilização ocidental. Comentou sobre os abusos realizados por grandes reformadores, contudo aplicava a contraposição de idéias (dialética), não que isto seja de alguma forma justificativa, mas o uso do poder e da violência por parte destes, era nada menos do que o resultado da interpretação que eles podiam fazer do mundo com os paradigmas que tinham até então.

Hoje é inaceitável pensar nos horrores que foram realizados em nome de “deus” , as perseguições, cruzadas, inquisições, sim no plural pois elas não foram realizadas apenas pela igreja de Roma como se pensa costumeiramente, os reformadores também perseguiram e queimaram muitas pessoas.
 E apesar de terrível, não é tão simples assim condená-los, não podemos olhar a história de forma tão simples. É preciso entender  os paradigmas que formavam a cosmovisão daquela época.
                Quando um aluno interferiu dizendo que independente de qualquer fator a despeito das informações que dispunham as pessoas da época, o principio moral do valor da vida é único e nunca mudou.
                Perdi a paciência, como alguém que se pretende teólogo consegue ter tamanha dificuldade de abstração?
                Agora você deve estar pensando; “Este cara está variando! É lógico que o colega dele está certo.” Exatamente neste ponto que eu quero chegar. Mas vamos caminhar mais um pouquinho no tema.
                Hoje é impensável pensar em escravidão, ela ainda existe, mas não é aceita pela sociedade. Mas a dois mil anos atrás era corriqueira. Uma pessoa se tornava escrava pelas mais variadas razões. Seu povo perdeu uma guerra, você virava escravo. Não podia pagar uma dívida, virava escravo. Os pais o vendiam,  virava escravo. E assim por diante. Era lógico, normal, comum, não havia escândalo algum. Mil anos a frente, as práticas escravagistas mudaram um pouco seu foco. Escravizar pessoas de sua própria “cor” não era certo. Mas negros e índios; sem problema algum. Mais algumas centenas de anos em plena revolução industrial, mão de obra escrava já não era bem vista, mas fazer operários trabalharem de forma desumana, sem nenhum direito trabalhista; operários incluíam homens, mulheres e crianças; tudo bem. A coisa era tão bem aceita, que qualquer manifestação contrária como no protesto organizado pelas operárias de uma tecelagem, seria punida da forma que bem entendessem os donos do poder. Neste caso específico prenderam as mulheres dentro da fábrica e atearam fogo. Qualquer relação com as fogueiras da inquisição deve ser mera coincidência. Mas este caso específico hoje é lembrado e a memória destas pessoas homenageada no dia internacional da mulher.
                Da mesma forma a humanidade vem se estruturando de tal forma que não aceita mais tais práticas. Hoje debate-se o preconceito, racial, social, sexual, etc. Na questão sexual, não somente de gênero mas também de opções. Mas nem sempre foi assim.
                Isto tudo nos faz pensar que somos donos de uma moral suprema. Que os valores humanos e humanísticos estão plenamente desenvolvidos.
                Graças a Deus estamos totalmente enganados!
                Se isto fosse verdade então a humanidade estaria fadada ao fracasso.
                Um dos milhares de exemplos de situações controversas que hoje vivemos é a seguinte:
                Você usa energia elétrica? Eu uso e muita, digo muita pois todo mês tenho dificuldade para pagar as contas. Mas deveria dizer muita por outros motivos.
                De onde vem esta energia? Com os recentes acontecimentos no Japão a geração nuclear está na berlinda. Ao pensar em  termoelétricas, logo associamos a emissão de carbono e ao efeito estufa. Sobram as hidroelétricas! Que maravilha, então o Brasil tem o melhor  modelo de geração elétrica, uma vez que apesar de termos usinas nucleares e térmicas, a predominância de nossa matriz é de origem hídrica. Podemos dormir tranqüilos.
                Caro amigo, estamos totalmente enganados. As usinas hidroelétricas são tão desumanas quanto as nucleares e térmicas. Geram gás carbônico e metano, por causa do apodrecimento da matéria orgânica no fundo de seus reservatórios. Devastam quilômetros e quilômetros de florestas, tem alto impacto em todo o processo ambiental nas regiões que são instaladas. Deslocam pessoas de suas regiões de origem e degradam suas vidas. Não fosse assim não haveriam movimentos como o das pessoas atingidas por barragens. Levam ao extermínio da cultura e da dignidade de povos indígenas.
                Mas que importa? O que vale é que no final das contas podemos tomar nosso banho quentinho em um chuveiro elétrico, nos refrescar no ar condicionado, ler este texto na internet, etc.
                Por isto eu espero que em um futuro que, tomara, não seja muito distante nossos descendentes nos olhem e digam.
                Como eram bárbaras e selvagens as pessoas até o início do século XXI.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O inferno existe, passei por lá ontem.

Por Paulo Sanda


Dentro da proposta do desenvolvimento integral do ser humano, nós da RUAH caminhamos por diversos ambientes. Nas empresas, em associações, hospitais, etc. Em palestras e projetos colaborando na desconstrução e nova construção de relação de valores, na busca de uma relação sadia e descobrimento do prazer e da importância dos relacionamentos. Em projetos sociais, articulando parcerias, desenvolvendo consultoria administrativa, tecnológica e também procurando alavancar investimentos.
Durante esta caminhada, somos presenteados com “vidas restauradas”, desculpem as aspas, mas o uso do bordão religioso é somente para efeito ilustrativo. Mas para exemplificar melhor, vão abaixo algumas frases que ouvimos após a realização de algumas palestras.
“Depois da palestra o relacionamento dentro da empresa mudou totalmente. O tratamento entre as pessoas agora é muito melhor”.
“Eu me identifiquei muito com a palestra”.
“Comecei a rever meus valores, principalmente em relação a minha família”.
“Você não sabe como as coisas se transformaram aqui na empresa”.
Entre outros “testemunhos” que tenho que puxar da memória, pois não tive o cuidado de documentar. Lógico, também ouvimos:
“Não tem nada a ver”.
“Não gostei”.
“Perdi meu tempo”.
Afinal como disse nosso querido anjo pornográfico, Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra”.
Feito este breve merchandising, vamos ao que interessa. Em nossa atuação por diversas associações que desenvolvem ações sociais, temos visitado trabalhos sérios realizados com carinho e dedicação. Com profissionalismo também, mas este se não acompanhado do amor, corre o risco de se tornar frio em impessoal.
Perambulamos entre ONGs que desenvolvem trabalhos magistrais e dão certo, pois realizam intervenções que vão além do simples assistencialismo, olhando o atendimento para as pessoas, como parte de um todo. Uma razão complexa não sujeita a generalizações.
Nos deparamos com projetos puramente assistencialistas, onde algumas pessoas buscam um simples analgésico para suas consciências.
Também encontramos projetos bons, com muita boa vontade mas pouco senso prático ou talvez administrativo. Isto muitas vezes os leva a terríveis rombos financeiros.
Em todos estes casos, procuramos sempre colaborar para que o que está dando certo possa ser ampliado e replicado, e o que não está dando tão certo tenha como ser aproveitado e até reconstruído.
Mas o pior estava por vir.
Já havíamos ouvido falar em projetos e instituições que começaram bem, mas no decorrer de sua existência acabaram se corrompendo, seja pela busca pelo status ou até mesmo pela apropriação de fundos por pessoas inescrupulosas.
Mas por estes dias presenciamos o nascimento de um pseudo projeto social, cujo fim é totalmente diverso do que se poderia esperar. Não pretendo entrar aqui no ramo da fofoca ou do sensacionalismo, por isto vamos nos ater à análise dos planos. Contudo antes de entrar nesta análise, tenho que dizer que raio eu estava fazendo lá.
Fomos indicados para estas pessoas, para buscar fundos para investimento na RUAH, vivemos de palestras e também de doações. Digamos que como palestrantes somos grandes pedintes. Ou talvez como pedintes sejamos bons palestrantes. Quem já leu o Vendedor de Sonhos de Augusto Cury saberá do que estou falando.
Fomos então convidados para participar de uma reunião pois este grupo de pessoas, empresários e pretensos religiosos iriam iniciar uma obra social.
Feito este parêntese, vamos a conversa e análise dos argumentos.
“Em prédio de X andares estaremos realizando atendimento médico para o povão”.
“Pediátrico, pois o que as mães ficam mais desesperadas por isto”.
“Ginecológico pois as mulheres procuram”.
“Clinico geral”.
Do que foi dito até agora;
O interesse em dar atendimento pediátrico é porque as mães se desesperam, não porque foi realizado uma pesquisa na área e foi identificada esta carência. Concordo que infelizmente há carência em todas as áreas, mas um trabalho para ser sério, precisa ser pensado. Se visamos uma determinada região temos que conhecer as estruturas existentes e propor ações que interajam com ela a fim de suprir as faltas, buscando o melhor resultado.
“Vamos contar com médicos voluntários, no início teremos alguns mas o salário não é alto, coisa de mil e poucos reais”.
Um olhar sobre a utilização gratuita do trabalho de outras pessoas e a pouca valorização do mesmo.
“O povão vai formar fila!”
“Nós vamos filmar tudo e usar”.
Bom até agora era preciso fazer um esforço para analisar se o trabalho era ou não sincero, a partir deste ponto o que temos é o seguinte;
Estas pessoas definitivamente não estão interessadas em um atendimento bom e humano para as pessoas. Querem ver formar fila. Tudo parte de um grande plano de auto-promoção.
Os diálogos após esta frase não são mais necessários.
Agora provavelmente você deve estar se perguntando; para que ele escreveu este artigo?
Para que fiquemos atentos aos projetos sociais aos quais fazemos doações?
Que analisemos nossas intenções?
Denunciar uma pretensa obra social?
Sinceramente, se você chegou a alguma destas conclusões ou outra qualquer. Ótimo.
De minha parte é apenas um desabafo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O trabalho social que dá certo.

“Eu não vejo a hora de vir trabalhar, adoro tudo isto”.
Isto não é parte de um diálogo entre um chefe e seu funcionário, ou um empregado recém-contratado.
Simone trabalha na Vivenda da Criança. Dá para entender por que.
Aos 50 anos de idade, a irmã Yvone Venditti, freira da congregação das irmãs Felicianas de Curitiba veio a São Paulo com um sonho. Tirar crianças da rua, salvando-as das drogas e da violência.
Com ajuda de muitos amigos, ela conseguiu comprar um terreno em Parelheiros, uma região com classificação de altíssimo risco social. Inicialmente ela com a ajuda de uma assistente, cuidavam de 12 meninos. Levava para escola, dava comida, cuidava da casa, reforço escolar, pagava contas, direcionamento e conceitos morais, enfim tornou-se uma mãe tanto para as crianças como para suas famílias. O trabalho que começou para cuidar de 12 crianças abandonadas, hoje abrange um universo de mais de 4 mil pessoas!
Mas o grande sucesso desta obra, é que ela envolve a criança por todos os lados. Procura dar condições de alimentação, educação e lazer para as crianças, capacitação profissional para os jovens e para os pais e ainda se envolve no ambiente familiar.
Enquanto as crianças ficam na Vivenda no período em que não estão na escola, elas tem alimentação, lazer, auxílio nos estudos, atividades lúdicas e muito carinho. No outro lado, jovens , pais e mães, frequentam cursos profissionalizantes como padeiro, manicure, cabeleireiro, costura e muito mais. Os jovens são encaminhados para empresas através de convênios como o jovem aprendiz. Mas nem só de pão vive o homem, então eles tem oficinas de música e outras atividades culturais.
Tudo isto ocorre dentro dos limites físicos da Vivenda, mas não para ai. Oito agentes vão a campo visitar as famílias, as condições de suas casas. Condições físicas e estruturais, de higiene, hábitos e também emocionais, violência doméstica, alcoolismo, etc. E lutam em todas estas frentes.
Cada agente cuida de 150 famílias!
E apesar de conviverem com um ambiente de muito trabalho e dramas humanos, onde derramam-se muitas lágrimas todos os dias, o lugar é alegre, as pessoas são felizes.
Devido ao trabalho que desenvolvemos, vivenciamos muitos dramas diariamente. Jovens que estavam sendo atendidos e foram assassinados, mulheres que mesmo sendo espancadas por seus maridos não tem outra escolha, pois vivem em um mundo séculos atrasado, crianças abusadas por padrastos, pais, tios, etc. Instituições que realizam apenas um trabalho pontual e esquecem do redor, do ambiente em que as crianças e os jovens vivem.
E visitar lugares assim são um verdadeiro refrigério para alma.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Minoria Esmadora

De uns tempos para cá aderi de corpo e alma no combate ao mega-projeto Usina hidroelétrica de Belo Monte. Não é minha intenção fazer apologia ao movimento neste artigo, mas também não posso deixar de citar meu ponto de vista em relação a isto, até porque esta questão e seus acontecimentos tem me levado a profundas reflexões.
Em um recente debate promovido pela nossa querida Mirian Leitão, dois especialistas se digladiaram. Mas debateram do ponto de vista econômico.
A questão é:
Quanto vale a vida?
Eu tenho filhos, e não os venderia por nenhum dinheiro deste mundo.
Como também não vendo o futuro deles, sou contra Belo Monte.
Mas vamos voltar alguns dias. No dia 4 de fevereiro de 2011, marcamos a primeira manifestação nacional contra Belo Monte. Bem da verdade acho que quem começou com esta história talvez tenha sido eu. Bom talvez.
O fato é que eu e o André fomos juntos ao local da manifestação em São Paulo, na avenida JK. No caminho ele me perguntou quantas pessoas estariam lá. Ao que respondi que se estivessem meia dúzia me daria por satisfeito.
Chegamos lá e nada, ninguém. Cada pessoa que ia chegando de preto ficávamos encarrando para ver se fazia parte da manifestação, nada. Mais alguns minutos foram chegando algumas pessoas. Gabriela, Carol e seu marido (desculpa cara, não me lembro do seu nome), Lara e Yuri, Verônica, Patricia, Gustavo (não se se este conta estava a trabalho hehehe, conta sim estou brincando) e o fotógrafo, ambos do Jornal Estado de São Paulo e outros (novamente desculpe pena falta de memória para nomes, mas tenham certeza meu coração não há de esquece-los).
Enfim nos juntamos a porta do Financial Center, ao que o segurança passou um aviso pelo rádio na hora. Conversamos, trocamos idéias, às vezes uma pequena frustração por sermos tão poucos. Mas no fim das contas formamos uma "minoriaesmagADORA".
Pudemos nos nutrir espiritualmente uns dos outros. Ninguém desanimou, muito pelo contrário ficamos mais motivados para continuar a luta.
Era neste ponto que eu queria chegar.
Apesar de poucos pudemos nos "nutrir espiritualmente" uns dos outros.
Neste comensalidade de alimentarmos nossos sonhos mutuamente nos tornamos realmente uma MINORIA ESMAGADORA. Não sabemos se vamos ou não realizar nosso intento de salvar a floresta amazônica, mas nossa humanidade com certeza já está salva.
Quer salvar a sua?

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

PENSAMENTO SISTÊMICO OU HOLÍSTICO

Pensamento sistêmico é pensar no todo e não apenas na parte. É ter visão panorâmica.
Quem tem pensamento sistêmico não generaliza, mas considera cada caso. Olha o processo e não parte dele.
Quem tem pensamento sistêmico olha para o presente, passado e futuro.
É pensar de forma não linear. É não pensar apenas no aqui e agora, mas nas conseqüências, nos resultados e nas razões.
É não agir sempre por impulso, pela paixão e pela emoção. Mas também não é agir só pela razão. É agir com razão e paixão.
É não pensar apenas no “próprio nariz”, mas considerar os outros, todos os outros e a si mesmo.
É não se esquecer que não se está sozinho no mundo.
Algumas situações onde costumeiramente se deixa de pensar de forma sistêmica:
- Os criminosos. Só se olha o crime e não as situações psicológicas e sociais que levaram o indivíduo a cometer o crime. A conseqüência é o desprezo pelos direitos humanos dos presos, a aceitação de pena de morte como sendo solução para o problema da criminalidade. São soluções de idéias reduzidas e simplórias, para se livrar do problema. Um pensamento sistêmico estabelecerá projetos de educação, combate a pobreza, consciência social, trabalho de recuperação, tratamento psicológico, etc.
- Transporte clandestino. Uma reportagem na Rede Record mostrou que há um grande número de ônibus clandestinos fazendo viagens pelas estradas do Brasil por tarifas mais baratas. A opinião dos jornalistas, foi simplista e linear, pois disseram simplesmente que a solução seria fiscalizar e prender os responsáveis. Ora, deve-se perguntar porque pessoas compram essas passagens mais baratas? Porque esses motoristas trabalham dessa forma esses ônibus em péssimas condições? Existem outras alternativas. Perceba que quando fazemos perguntas do tipo “por quê”, ou seja quando procuramos as reais razões, estamos pensando de forma sistêmica ou holística, ou seja procurando cobrir todos os lados antes de oferecer um julgamento e respostas simplistas.
- Maridos e Esposas. Se cônjuges pensassem de forma sistêmica, as brigas poderiam ser evitadas. Pois normalmente nessas horas, cada um só olha o seu próprio pedaço e tenta defendê-lo com unhas e dentes sem pensar na situação do outro. Já percebemos por aqui que pensar de forma sistêmica não é tão fácil, faz a gente entrar em conflito consigo mesmo. Nossa natureza parece sempre tender mais ao egocentrismo.
                Na empresa, precisamos começar a pensar de forma sistêmica:
- Departamentalização. A cultura de “bairrismo” impera em muitos setores. Pessoal do comercial não se atenta para as questões fiscais. Não olha o todo: empresa-cliente-governo-o povo-imagem-colega da área fiscal-família do colega-etc.
- Defender o meu “cargo”. Estamos tão afoitos em defender o próprio cargo que nos esquecemos da razão pela qual nosso trabalho existe como parte do um todo da companhia, que no final das contas precisa atingir seus objetivos, que por sua vez contribui para todos os colaboradores atingir os seus objetivos.
- Lucro acima de tudo. Ter lucro acima de tudo, sem pensar no funcionário que é explorado, sem pensar no meio ambiente que pode estar sendo prejudicado, sem pensar no todo.
                Você já ouviu falar do “Efeito Borboleta”? Tudo o que você faz tem efeitos mundiais.
                Já vimos que não é fácil pensar sistemicamente ou holisticamente. Então o desafio é grande. O programa de espiritualidade na empresa é essa alternativa de pensar sistemicamente procurando minimizar nas relações que temos com o mundo, com os outros e conosco mesmos, os impactos de nossa desvairada ação e pensamento linear.
                Um outro risco que mencionamos apenas, referente a falta de um pensamento holístico são as famosas generalizações, que na verdade não passa de reducionismo, ser simplório. Frases do tipo: Padre é tudo pedófilo, Pastor é tudo ladrão, carioca é tudo metido, praia é tudo igual, político é tudo ladrão, etc. Mesmo que as vezes isso pareça ser verdade, é um engano da mente. Pois deixa de enxergar os que apesar de serem da mesma profissão ou de uma certa classe, deixa-se de considerar as particularidades. Então olhar o todo, é olhar também todas as partes possíveis. Daí a necessidade que temos do complexo ao invés do simplório. Veja não estou falando de simplicidade no sentido de humildade ou de viver de forma simples. Falo sobre a necessidade de se considerar toda a complexidade da vida e do universo, e isso também em todas as áreas da vida humana, inclusive numa empresa.
“Na linguagem cotidiana , uma situação complexa soa como confusa e difícil de resolver. Evoca uma realidade cheia de dobras, nas quais escondem variáveis difíceis de serem compreendidas. Confunde-se complexidade com complicação, algo que não é fácil de explicar nem de resolver.” (AFONSO MURAD – GESTÃO E ESPIRITUALIDADE – EDITORA PAULINAS – PG.178)
                Murad também explica a etimologia da palavra “complexo” que origina-se do latim “complectere”. A raiz “plectere” significa trançar, enlaçar. Remonta ao trabalho de fazer cestas. O sufixo “com” acrescenta o sentido de dualidade dois elementos opostos que se enlaçam intimamente. Ou seja o pensamento complexo lida com conflitos, com o diferente. Ainda, o perplexo, “per” significa levar ao extremo algum coisa, por exemplo “perfeição”,  não dá conta de lidar com as diferenças. Ele permanece “enrolado” nas complexidades. Pensar de maneira sistêmica é lidar com as complexidades, é ter pensamento complexo.
                No ambiente de trabalho é preciso lidar com dimensões completas, inclusive de nossa humanidade. Lidar com nosso lado material e lidar com o nosso lado espiritual. Lidar com os valores da empresa e lidar com os nossos valores pessoais. Lidar com os meus valores e lidar com os valores dos meus colegas. Lidar com os meus problemas do meu setor e com os problemas do outro setor. Lidar com coisas antagônicas. Lidar com questões econômicas e lidar com questões humanas ou espirituais. Se não nos dispomos a essa “lida” com a complexidade, fatalmente ficaremos perplexos e assim permaneceremos até por fim “morrermos”.
                Nesse sentido um grande problema do mundo pós-moderno é que ele tornou-se tão complexo, tão abarrotado de informações, que o que temos hoje são os especialistas. As escolas formam especialistas, mas não formam um ser humano integral. De fato, será necessário nos concentrarmos em uma especialidade para não nos perdermos nas infinitas opções e especialidades que existem. Faça uma busca no Google de qualquer tema e você terá uma infinidade de sites, blogs sobre o tema. Entretanto, mesmo tendo que ser especialistas não podemos perder a noção do todo, no mínimo em saber que existem visões diferentes sobre o mesmo assunto ou problema.
                Podemos então concluir que ter um pensamento holístico ou sistêmico é não perder de vista os outros pontos de vista.

André Luiz

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Por um trabalho mais humano.

Por Paulo Sanda

Agora eu vou falar.
Se você assistiu aos vídeos sobre a fábrica de jeans na China, deve estar com um gosto amargo na boca. Com certeza, há muito a se discutir sobre este assunto. Podemos criar páginas e mais páginas, livros, etc. Mas vamos por outro caminho, por enquanto.
Convoco sua imaginação agora para a seguinte cena:
Em um belo final de tarde, você sai a calçada, ou desce a área comum de seu condomínio, leva uma bebida (pode ser uma cerveja, um refrigerante, um chá enfim o que for) talvez algo para beliscar, senta-se com os vizinhos e fica conversando enquanto olham as crianças brincando. Nada de trabalho, falam sobre a vida, o tempo, contam piadas, etc. Ou quem sabe levar um violão e fazerem uma roda de músicas, recitar poemas, enfim um SARAU (para quem não sabe um evento cultural informal, as pessoas se encontram para se expressarem artisticamente).
E ai o que achou?
Talvez você tenha pensado:
Mas eu faço isto de vez em quando, pelo menos uma vez por semana.
Parabéns, você é um privilegiado, só posso dizer que, se inveja matasse eu estaria fulminado.
Mas provavelmente, deve estar achando que eu sou algum lunático:
Quem tem tempo para isto? Trabalho o dia todo, chego tarde em casa, começo a trabalhar no domingo a tarde e só para no sábado de manhã e olha lá!
Falar sobre o que? Nem conheço meu vizinho!
Não para por ai, tem muita gente que nem consegue se imaginar falando sobre outra coisa que não seja trabalho.
Pois é justamente neste ponto que eu quero tocar.
No documentário que assistimos (se não o fez, pare de ler agora e volte no meu post anterior para assistir), deve ter se revoltado com o dono da fábrica de jeans. A exploração dos funcionários, os argumentos que ele usa para se justificar e a falsidade de toda aquela estrutura que visa apenas uma coisa, dinheiro. E como bem disse o grupo Dire Straits, “money for nothing”.
Bom se ficamos revoltados com isto porque não nos revoltamos com nossa própria exploração?
Explico; em um recente artigo do jornal Folha de São Paulo (edição de 23/1/2011), Márcio Pochamann presidente do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) diz que o descanso semanal médio que era de 48 horas baixou para 27 horas (você pode ler esta matéria na integra em http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=40165).
Sem querer entrar no mérito das razões pessoais de cada um, cabe aqui uma reflexão. Trabalhamos cada vez mais para dar conta de um desejo crescente por bens de consumo. Não adianta dizer que é para sobreviver, pois o que queremos é; manter ou subir nosso “padrão de vida”, traduzindo, manter ou aumentar nosso poder de consumo.
Nesta roda viva, escravizamos a nós mesmos, proporcionamos a exploração de outras pessoas, colaboramos ativamente na degradação de nosso planeta. Deixamos de ser humanos para sermos consumidores. Não vivemos para um projeto de vida, nossos objetivos são planos de consumo.
Não precisa concordar comigo, mas pense um pouco.
Durante este mês, quando tempo dedicou para sua família, seus amigos, trabalho voluntário, etc?
Quantas atividades de lazer sua não estão ligadas diretamente ao consumo? Ao invés de ir ao shopping center, fazer uma visita a um parente ou amigo, por exemplo.
Pensou?
Ok, vamos dar uma volta no shopping, estou de olho em um novo celular....

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Desta vez não quero dizer nada.

Parece lindo não?
Temos cada vez mais produtos de consumo ao nosso alcance. Mais e mais baratos.
Aliás estão tão baratos, que deviamos nos perguntar. Quem está pagando por eles?
Olhando a realidade retratada no documentário China Blue, podemos vislumbrar um pedacinho dos caminhos trilhados pelos nossos "sonhos" de consumo.
Você vai dizer,"mas um jeans não é meu sonho de consumo!"
Mas você acha que os outros produtos lá fabricados tem outra rota?
Temos que repensar nossa sociedade, nosso consumismo.
Não vou dizer nada por enquanto, por favor usem um tempo de suas vidas e assistam as 6 partes do documentário que coloco abaixo.




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