Da esquerda para direita Paulo Sanda (Palestrante da Ruah), o teólogo Andres Torres
Queriuga e André Luiz Alves da Silva (Palestrante da Ruah)
Andrés Torres Queiruga é um dos maiores teólogos da atualidade e elabora a sua teologia em pleno diálogo com a pós-modernidade. Foi um dos palestrantes do 2º Theologando Internacional promovido pela Fonte Editorial.
Para que vocês saibam, vim aqui, eu que represento a voz de Cristo. E por isto convém que prestem toda atenção, não uma qualquer, mas a de seus corações, e sentimentos, ouçam a maior novidade que jamais ouviram, a mais áspera e dura, a mais espantosa e perigosa, que jamais imaginaram que ouviriam.
Esta é a voz que todos estais em pecado mortal, e nele vivem e morrem, por causa da crueldade e tirania que usais com estas pessoas inocentes.
Digam, com que direito e com que justiça, tratam em tão cruel servidão esses índios?
Com que autoridade, fazem estas coisas detestáveis com essa gente, que estavam em suas terras mansas e pacíficas, onde tão infinitas delas, com mortes e estragos nunca ouvidos, vocês os tem consumido?
Como os oprimem e exaurem, retirando sua comida, e meio de vida? Como podem tratá-los desta forma, até que eles morram? Ou melhor até que vocês os matem?
Tudo isto para conseguir o ouro de cada dia?
Eles não são homens? Não tem almas racionais?
Não somos obrigados a amá-los como a nós mesmos?
Não entendem isto?
Não percebem isto?
Como dormem tão profundamente neste sono tão letárgico?
Quem adivinha onde foi proferido este sermão?
Talvez um padre ou um pastor, o tenham feito em algum lugar na floresta amazônica?
Ou talvez no pantanal?
Sim poderia ser, é bastante atual.
Mas não, ele pode até ter sido utilizado, em algum culto, missa, ofício, etc. Aliás acredito que deveria ser sim, pregrado em muitos lugares, ou melhor pelo mundo todo, e para todos ouvirmos.
Mas este sermão, foi feito pelo padre dominicano (da ordem de São Domingos) Antônio Montesinos, em 1511. Este sermão foi proferido sobre “Ego vox clamantis in deserto” / Eu sou a voz que clama no deserto, do evangelho de Mateus, no trecho que fala de João Batista.
Tratava-se de uma denúncia sobre a forma de dominação, que os espanhóis impunham aos indígenas que habitavam na ilha de Cuba.
Não é preciso muita pesquisa ou imaginação, para saber o que se passava.
Os espanhóis tomaram a terra dos índios, os escravizavam e massacravam.
Passados 500 anos, continuamos a fazer isto.
Escrevi aqui, este sermão na esperança que o “vocês” usado por Montesinos, possa ser lido como:
Você Dilma.
Vocês todos políticos.
Vocês todos empresários.
Vocês todos brasileiros.
Enfim, que cada um de nós possa ouvir este eco do passado, que reverbera no grito agonizante destas culturas, destes povos, destas pessoas que massacramos em nome do “desenvolvimento”.
Da natureza que devastamos em nome do “bem maior”.
O nome deste “bem maior”, deste “desenvolvimento” é dinheiro, capital.
Alguns podem pensar, em emprego, transporte, saúde, educação, enfim bem estar e justiça social.
Sinto amigo, não é isto, o capital só serve ao capital. Todo o resto é cortina de fumaça.
Não fosse assim, com certeza, não estaríamos investindo milhões em um estádio de futebol em São Paulo, pelo menos não antes do transporte, educação e saúde estivessem no estado da arte.
Não investiríamos bilhões em obras faraônicas, como as usinas hidroelétricas, sem antes atentar para as necessidades das pessoas, na justiça social e nos direitos humanos.
Não haveriam pessoas que dizem que precisamos da energia que teoricamente será gerada por Belo Monte, pois antes pensaríamos na vida.
Aliás, se a vida estivesse em primeiro lugar, não usaríamos tanto a palavra CUSTO.
Sim, pois tudo custa, mas o que primeiro custa, é o dinheiro.
O capital, desenvolvimento e dinheiro não são ferramentas para humanização, nem para preservação da vida como um todo.
Mas a vida, é ferramenta para o desenvolvimento do capital.
Será que não percebemos isto?
Será que não entendemos isto?
Como podemos continuar neste sonho letárgico que a humanidade será possível, se continuarmos a seguir este caminho?
Juntamente com milhares de brasileiros, fiquei profundamente chocado com as cenas do programa a Liga da rede Bandeirantes.
Não que desconhecesse o assunto, sabia sim. Uma denúncia aqui, outra acolá, ficamos tristes, chocados, coléricos, deprimidos, etc. Mas passados alguns minutos, voltamos a nossa vidinha.
Afinal é preciso pagar as contas.
Ai que a coisa pega!
Não sei se você já reparou, mas corremos atrás do rabo, quanto mais trabalhamos, mais contas nos aparecem. É o verdadeiro “milagre” da multiplicação das contas.
Mas este “milagre” é bem planejado.
Para que o sistema capitalista, baseado no consumo sem mantenha, é preciso que os produtos sejam consumidos em uma velocidade cada vez maior. Precisamos comprar, produtos, serviços e todo tipo de porcaria, num ritmo cada vez mais frenético. Basta um pequeno vacilo e esta economia fica “ressentida”, entra em crise.
Não vou gastar seu tempo lendo sobre este assunto, aconselho que vá ao site da fundação Story of Stuff de nossa querida Annie Leonard e assista o filme. Em vinte minutos você terá um amplo panorama deste assunto.
Ou no meu blog, você pode ver este vídeo em português.
Vamos então, mais fundo nesta historia.
No programa a Liga de ontem, após todas aquelas histórias, o Leonardo Sakamoto da ONG Reporter Brasil, comenta que o trabalho escravo só vai acabar, quando houver oportunidade para todos, condições de todos terem os direitos básicos, direitos que constam na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Como alimentação, moradia, saúde, trabalho, estudo, lazer, etc.
O problema é que mesmo em países signatários desta declaração, que é o caso do Brasil, estes direitos não são respeitados.
A questão é que isto não é possível.
Pelo menos não é possível, pensar que conseguiremos um dia incluir todos neste sistema de consumo que vivemos.
Por motivos simples;
A exclusão é necessária→ Um exemplo simples disto é o que acontece hoje na Africa do Sul.
Enquanto durou o sistema de segregação racial, os brancos puderam ter um bom padrão de vida, pois havia uma grande massa de negros para serem oprimidos e explorados. Hoje a coisa está complicada, não cabem todos neste barco.
Para que nós tenhamos o que desejamos, muitos tem que dividir a conta conosco.
Se você tirou um tempinho para ver o vídeo da Annie Leonard que citei, entenderá do que estou falando, se ainda não viu, tenha mais um pouco de paciência comigo, leia este artigo até o final então vá correndo ver a Annie antes que esqueça tudo e volte para a “vidinha”.
Uma ilustração que podemos fazer deste assunto, é a seguinte;
Estamos comendo em um fino e caro restaurante, mas não podemos pagar a conta.
Então as pessoas que nos olham famintas pela vitrine, são chamadas, não para participar da refeição, mas para ajudar a pagar a conta do que comemos.
Ou pior ainda, além de ajudarem a pagar a conta, o restaurante, já havia tirado destas pessoas, o que tinham para comer, para nos preparar o banquete que iriamos degustar, pois não havia alimentos o suficiente.
Neste ponto, chegamos no outro motivo.
O planeta não comporta → O sistema de consumo em que vivemos é utópico, a velocidade com que retiramos dele os recursos que “precisamos” não é a mesma que ele tem para se regenerar.
E como os ecossistemas não comportam a super exploração e super degradação a que são expostos, vamos retirar os recursos de quem não tem. E pronto voltamos novamente ao primeiro exemplo.
Trata-se de um círculo simples e “maligno”.
Por isto eu afirmo, não é possível acabar com o trabalho escravo.
Se queremos continuar a viver neste sistema capitalista e consumista, precisamos continuar a explorar outras pessoas.
Mas tem uma coisinha, apesar do sacrifício que os pobres e miseráveis fazem por nós, mesmo assim, não será possível manter nossos tão queridos padrões de vida.
Afinal os recursos naturais estão acabando por todo mundo.
Aqui no Brasil, estamos a poucos passos de dar o golpe de misericórdia em nossas florestas com as alterações propostas em nosso código florestal pelo Aldo Rebelo, e com a construção de inúmeras hidroelétricas na floresta amazônica e no Brasil central, Belo Monte, Santo Antônio, Jirau, já está em andamento, depois delas teremos mais dezenas delas para podermos minerar o subsolo da floresta.
E antes mesmo que a natureza nos diga chega, estão explodindo por várias partes do globo, manifestações contra este regime. Muitas vezes as pessoas nem entendem muito bem, porque estão indignadas. Na semana passada na Inglaterra, manifestações viraram saques, afinal aqueles jovens queriam consumir mais, e como a grana não dava para tudo que queriam, resolveram saquear.
Um dia a moda pega, então os miseráveis, cansados de serem oprimidos, irão começar a saquear. Afinal eles querem comer, mas a grana não dá.
Quer evitar isto?
Não fique alienado, antes de ficar na “vidinha” correndo atrás de dinheiro, tome um banho de informação, no Ecodebate, IHU On Line, e em outros portais alternativos, fique indignado assistindo matérias de denúncia como as da Liga e outros, veja o documentários como “Capitalismo Uma História de Amor” do cinegrafista Michael Moore, mantenha-se informado, pegue seu coração e fertilize com as mazelas de nossa sociedade e nosso sistema, se quiser me dar também a honra de colaborar neste processo, acompanhe meu blog
Faça isto e convide seus amigos a fazer o mesmo, após convencidos, peça a eles que também convidem mais pessoas.
Acredito que ainda dá tempo de construirmos um mundo um pouquinho melhor.
Samba no pé e comida na boca... ops... comida?... nem todo mundo pode dizer isso! Nesse novo RuahPodcast os dois "enrolões" Paulo Sanda e André Luiz conversam a respeito do problema sério da fome e a "teologia da panela". E para inspirar a consciência e a fala dos dois: a música "Pode Guardar as Panelas" de Paulinho da Viola.
O poder é alvo de muitas das buscas do ser humano. Ter uma varinha mágica ou uma divindade que resolva "meus problemas" é tudo o que queremos. Neste Podcast, André Luiz e Paulo Sanda, inspirados no último filme da série de Harry Potter, trabalham o tema do poder e sua sedução.
Por estes dias estava conversando com um amigo, o quanto o politicamente correto por vezes enche o saco.
Os humoristas que o digam. Fazer piada está cada vez mais difícil.
Falávamos saudosistas de várias piadas, que hoje não são de bom tom.
Do quanto é irritante a regra inaugurada na época do ex-presidente Sarney:
“Brasileiros e brasileiras”.
E outras “baboseiras” mais.
Mas um ponto interessante nas conversas que tenho com este amigo, é que sempre caímos para o campo filosófico.
Começamos a analisar que, talvez este extremismo do politicamente correto, acabe também desembocando em reforço para os movimentos radicais no lado oposto. Skinheads, homofóbicos, machistas, etc.
Será que isto é positivo para a sociedade?
Mas por outro lado, a manutenção de um estado das coisas aparentemente moderado, morno, também pode levar a mazelas que passam despercebidas.
Como sou descendente de japoneses, dei o seguinte exemplo:
Os japoneses, são respeitados, como honestos, estudiosos, esforçados, etc.
Mas por outro lado somos o famosos “café com leite”.
Explico, quantos descendentes de japoneses tem destaque como artistas na televisão ou na música?
Pouquíssimos.
Somos tão “café com leite”, que sequer as piadas sobre japoneses são poucas. A pecha sobre o membro pequeno continua, mas nem trisca no politicamente correto, pois quase não são contadas, para a sociedade em geral não temos graça.
Por outro o racismo contra os negros, sempre foi grande, e seguindo a mesma linha de raciocínio, as piadas sempre foram muito mais engraçadas, os artistas mais reconhecidos.
E hoje temos medidas sendo tomadas contra a discriminação racial. Não pretendo julgar méritos, para dizer se são ou não corretas nem suficientes. Apenas que acontecem.
Ainda em relação aos negros, nos Estados Unidos, o racismo sempre foi mais violento. E agora temos um presidente negro.
A questão dos homossexuais é outra que está sendo discutida.
E é neste ponto que desejo chegar.
Melhor dizendo, com esta linha de raciocínio, cheguei a conclusão que a UHE Belo Monte, está sendo muito importante para nosso pais.
Pois ela deu na década de 70 visibilidade na discussão sobre os índios, e hoje traz o assunto de volta, permeado com mais, e importantes nuances.
A importância da preservação da floresta, a defesa dos povos indígenas, das comunidades ribeirinhas.
A conscientização de que a floresta é mais importante que os recursos minerais em seu subsolo.
A sacudida que estamos precisando, para ver que o sistema de poder político, econômico, e roda viva de consumo que vivemos é uma falácia.
Enfim, a discussão está aberta.
Eu e mais meia dúzia de gatos pingados (Carol, Thiago, Eli, Leda, Patrícia, Tati, Paola) começamos em São Paulo as manifestações contra Belo Monte, fizemos uma vaquinha para comprar um megafone, material para faixas, etc. Ficavamos horas a fio em frente ao MASP, falando e sendo objeto de chacota de alguns passantes. Mas hoje milhares de pessoas estão participando das manifestações que acontecem por todo Brasil.
Com disse, a discussão está aberta, só espero que não tenhamos que pagar muito caro por esta oportunidade de aprendizado.
No dia 17 de julho (domingo agora) haverá outra manifestação.
Se você é contra Belo Monte, venha, vamos fazer esta festa pela vida juntos.
Se é a favor, venha e vamos discutir o assunto, pois não há melhor caminho que o diálogo.