sexta-feira, 15 de julho de 2011

Apologia à dúvida

              Se tudo o que vemos e entendemos não passa de interpretação, podemos concluir que ter certezas não é muito inteligente.

                O entendimento que temos da realidade que nos cerca é produto de representação.

                Comecemos por Deus. Ninguém jamais viu a Deus, já dizia o evangelista João. Deus só pode ser concebido por meio de representação, de analogia, de comparação, de simbologia. É por isso tudo o que “sabemos” a respeito de Deus nada mais é do que o produto de nossa imaginação baseado em alguma experiência que chamamos pelo nome de Deus. O fato é que mesmo que não creiamos em nenhuma divindade, fatalmente estaremos optando por alguma crença, posto que também a não existência de Deus é improvável. Mas se concebemos algum Deus teremos de lançar mão de um modelo que nos sirva de comparação. Os cristãos fizeram a opção por Jesus, como símbolo (representação) de Deus. As religiões afro-brasileiras têm seu panteão de divindades, os orixás, e tem por Deus o Pai Olorum. Os mulçumanos tem Alá. Os hinduístas tem Shiva e centenas de outras divindades. Logo, uma convicção absoluta de Deus é idiotice e uma convicção absoluta de não-Deus também é imbecilidade. Tudo não passa de um caminho escolhido, de uma escolha de crença.

                Crença não é convicção, não é certeza. Acreditar é dar crédito a. Como numa operação financeira em que o banco ao emprestar dinheiro ao seu cliente está lhe concedendo um crédito.
                Mesmo a matemática, embora lide com resultados exatos é formada por representação. Os números nada mais são que representação do que chamamos de quantidade. A representação faz parte de qualquer aspecto da vida humana. Representamos sons e comunicação pela linguagem. Representamos a vida nas manifestações artísticas.  Shopenhauer já falava do mundo como vontade de representação.  Não há problema em representar, em simbolizar, em imaginar. O problema está em nossa convicção sobre a nossa representação. A certeza de nossa interpretação é perigosa porque nos cega para o fato de outros possuem interpretações diferentes e também legítimas

                A meu ver, toda ortodoxia e dogmatização fundamentalistas são barreiras para um pensamento inteligente. Portanto, eu sugiro que toda convicção e certeza seja questionada.

                Algumas áreas onde nossa percepção de realidade dogmatizada e que precisamos reconsiderar apenas como percepções e não como a verdade última:

-  Religião. Há milhares. Não pode ser possível que apenas uma seja a correta. Cada um faz a sua opção por um caminho.

-  Moral. Certo e errado mudam conforme localização geográfica, cultura, tempo, contexto, etc.

- Ética. É preciso entender a ética dentro do contexto da situação. Afinal, se diz que até bandido tem sua “ética”.

- Família. O modelo familiar mudou, hoje temos uma pluralidade de modelos com os casais homoafetivos, os divorciados, filhos adotados, etc.

                Enfim, todas as áreas da vida humana estão marcadas pela representação e por isso podem ser repensadas e não precisam ser absolutizadas. É nossa necessidade de dar sentido que faz com que nos apegamos a convicções sobre modelos e sistemas que nada mais são do que a maneira como queremos significar as coisas pra nós. Ou seja, queremos que a vida e o mundo façam sentido.

                O caminho da maturidade a meu ver percorre pela percepção do fato de que não sabemos o sentido ou se a vida tem algum sentido. E nesse caso, ou convivemos com esse vazio de sentido, ou damos um sentido para ela, ou ainda optamos por um caminho que poderá ser o de alguma religião ou crença. Fato é que, quer optemos por um caminho de ter sentido ou não ter sentido conviveremos com a dúvida se encontramos a verdade ou não. Portanto a resposta adequada a como conviver com isso, é a humildade no sentido de “eu não sei o sentido da vida, mas a minha opção é essa tal e tal”. E a opção de outro ser humano deverá ser respeitada. Essa opção trilhará pelo caminho da esperança e da fé. Em outras palavras, podemos dizer que todo ser humano é provido de fé, de esperança. Podemos então concluir que ter fé e esperança é humano, ter convicções e certezas é infantilidade.

Porém respeitar a opinião ou o caminho do outro quanto ao sentido, não quer dizer que não possamos fazer questionamentos. Repito o caminho da maturidade não é ter certeza, mas é justamente a dúvida e a consciência de que o significado escolhido é apenas mais “um” e que, portanto sempre poderá ser desconstruído e novos significados poderão ser construídos. Parece loucura, para alguns. E talvez eu deva dizer que nem todos suportarão esse tipo de pensamento e vão se trancar nos seus próprios significados. Já dizia Sócrates: “Só sei que nada sei."
Autor: André Luiz é estudante de Teologia e pós-graduando em Filosofia. É também palestrante da Ruah.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Admirável Gado Novo

Zé Ramalho, cantor nordestino do Brasil, compôs a música Admirável Gado Novo certamente num trocadilho com o título da obra de Aldous Huxley "Admirável Mundo Novo". Neste novo Podcast da Ruah, Paulo Sanda e André Luiz dialogam a respeito de liberdade, injustiça, desigualdade social, temáticas tão presentes na letra dessa canção.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Ruah Podcast - Músicas - Pra você

O Sertanejo Universitário é a nova onda da música no Brasil e a belíssima cantora Paula Fernandes é de um seus destaques. Neste novo Podcast Paulo Sanda e André Luiz discutem a temática da alteridade presente na música "Pra você" composta pela artista e Zezé Di Camargo.


Sacrifícios Humanos




Anos atrás nosso então presidente topetudo, Itamar Franco ficou feliz por derrubar a bolsa de valores.
“Nós vencemos eles”.
Nosso querido ex-presidente foi bastante polêmico, e nos brindou com muitas frases e flagrantes.
Na época eu como quase economista, ex operador de pregão Bovespa e BM&F, achei um absurdo a afirmação dele.
Afinal, ele estava se congratulando por afundar o pais!
Afinal o mercado financeiro é uma forma das empresas conseguirem capital de risco para realizar investimentos produtivos, gerando emprego e divisas para a nação.
Desculpe Itamar, eu estava errado e você certo.
Já venho a algum tempo desconstruindo minha ideia sobre a nossa sociedade baseada no capital, mas ontem vendo os protestos da Grécia, que passa por uma profunda crise, com alto desemprego e falta de perspectivas para o povo.
O governo grego na última década levou as despesas públicas as alturas, e praticamente dobrou o salário do funcionalismo. Agora o pais tem dificuldades para pagar suas dívidas e o parlamento vai aprovar um pacote de austeridade que vai congelar o salário dos servidores públicos, aumentar impostos, o preço da gasolina e elevar a idade mínima da aposentadoria. Este pacote vai impactar diretamente a vida de todo povo grego. É assim, uns se privilegiam e todos pagam a conta.
O capital tem que ser preservado, pois é o ente máximo de nossa sociedade.
O povo grego vai pagar o pato, para que o capital não seja prejudicado.
É algo surreal, pessoas serão sacrificadas no altar.
É verdade, o altar!
Vejam, bastou o parlamento grego acenar com possibilidade de aprovação deste pacote de austeridade econômica que as bolsa entraram em festa pelo mundo todo. São verdadeiros templos do capital. E em nome deste deus, realizamos estes verdadeiros sacrifícios humanos.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Novidade , velha.

Amigos, acabamos dando uma mancada.
Colocamos nosso primeiro podcast no ar na página de Podcast, mas esquecemos de inserir o Post sobre a novidade!

Feita a mea-culpa.
Veja o primeiro podcast, onde comentamos o filme Tropa de Elite II, a importante mensagem que ele nos passa.

Faça seus comentários e indique outros temas que você gostaria que fossem abordados!


quinta-feira, 16 de junho de 2011

Pensamento sistêmico ou holístico II - Diálogo

Percebi que nas últimas semanas o meu artigo sobre pensamento holístico foi bastante acessado. Então resolvi escrever um pouco mais sobre o tema. Pensei que talvez eu pudesse fazer alguma aplicação prática daquilo que foi dito ali ou ampliar um pouco mais o conceito.
Mas antes, que tal, se ao invés de falarmos em pensamento sistêmico pudéssemos trocar para orgânico. Sim, porque quando falamos em sistema, nos dá a impressão de algo engessado, pre-formatado e que não pode ser alterado. Orgânico é diferente. Orgânico nos traz a idéia de elementos que agem e interagem entre si, mas que podem ser modificados para que os objetivos sejam cumpridos. Mas como orgânico também tem muito haver com a vida no sentido biológico, nos faz pensar no objetivo maior que é a vida.
Então, puxando um pouco mais para o foco da Ruah, que é trabalhar com valores que possam agregar para a vida das pessoas em suas comunidades de trabalho. Convido vocês a refletir comigo de que forma o pensamento orgânico nos ajuda a alguma questão prática.
Pensando sobre como o diálogo é um valor de muita importância para equipes que querem produzir algo que agregue para as pessoas e, por conseguinte, para sua comunidade, vamos tentar perceber como o diálogo é atitude preponderante daquele que tem pensamento orgânico ou sistêmico.
A primeira lição que devemos aprender, é que todo bom diálogo começa com a atitude e a boa vontade para ouvir. Sim, pois aquele que deseja apenas falar, faz monólogo. O escritor Rubem Alves escreveu um texto onde ele diz que deveria haver um curso de "escutatória", porque os cursos de oratória existem aos montes, mas o nosso grande problema não é saber falar, e sim, saber ouvir. Pode perceber, que sempre quando vamos conversar com alguém, não queremos ouvir suas idéias e sim colocar as nossas. E mesmo quando nos dispomos a ouvir o outro, já vamos interpretando e oferecendo nossa hermenêutica ao nosso interlocutor. Que tal se apenas ouvíssimos?
A segunda lição decorre da primeira e diz respeito ao fato de quando primeiro ouvimos o outro até o fim o que ele tem para dizer, aí sim temos a opção de escolher. Ou seja, ouvir é ser livre para fazer uma escolha, é ter de fato escolhas para fazer.
Outra lição que o diálogo nos traz, é que ouvir o outro nos desafia a repensar nossa própria opnião e ai então construirmos algo novo.
Perceba que o pensamento orgânico considera não apenas as suas próprias idéias mas também as dos outros e isto é enriquecedor. Quando for desenvolver um trabalho em equipe, comece a praticar o diálogo e você verá o quanto seu trabalho será enriquecido e o quanto as pessoas se sentirão valorizadas por participar de verdade contribuindo e recebendo contribuições. Num organismo, todos os "órgãos" são importantes e um só deles que seja, faz falta.

André Luiz Alves da Silva
Palestrante da Ruah, teólogo e pós-graduando em Filosofia

sábado, 21 de maio de 2011

Na hora da festa fiquei de fora!

Paulo Sanda


Puxa vida!
Vou lá com meia dúzia de gatos pingados, nos esfalfamos, ficamos roucos de gritar em várias manifestações seguidas.
Quando finalmente pinta uma galera legal, quando tem dança indígena, participação de “caciques”, eu não posso ir!
Fui convidado, não posso reclamar disto.
O problema é que esta vida de idealista  faz a gente passar por umas situações um pouco difíceis. Havia passado a semana toda com cinco reais no bolso, nem dinheiro para fazer o mercado, quando mais condução para ir à manifestação.
Pois é, faz parte da vida. Mas quer saber de uma coisa. É maravilhoso!
É lindo saber que apesar de eu não poder ter estado lá, as coisas aconteceram.
É edificante ver que os ideais podem contaminar as pessoas.
É recompensador, ouvir que a vida está lutando e continua lá, brotando em muitos corações.
Da mesma forma, dá esperança.
A esperança, que apesar de a humanidade hoje ainda ser predadora da própria humanidade e da natureza, existe um sopro, uma possibilidade das coisas mudarem.
Que conseguimos nos desgarrar de nosso egoismo materialista, para pensar no futuro.
No futuro de todos e do planeta.
Acredito que há esperança, que se por um lado, o “mal” faz parte da natureza humana, no exercício de nosso egoismo e mesquinhez, por outro, o “bem” também luta dentro desta mesma natureza, na forma do amor e da abnegação. Que podemos transcender a esta sociedade egoísta, que só consegue pensar em consumir e consumir, para uma humanidade que deseja amar.
Bom, você deve estar pensando, que eu afoguei minhas mágoas numa garrafa de cachaça e devo estar bêbado e apaixonado para escrever tanta besteira.
Olha eu gosto sim de uma cachacinha, não vou negar. Mas não é este o caso.
Se você olhar para a história da humanidade, verá que, estamos caminhando.
Não é a primeira vez que eu digo isto, mas vale lembrar. Só que desta vez vamos colocar um enfoque diferente, quem quiser ver outros, leia na crônica anterior, “Esperando por uma condenação histórica”.
Cinquenta anos atrás ou menos, uma mulher solteira grávida era um escândalo! A família fazia tudo para encobrir.
Hoje as mulheres são independentes (ou quase) e muitas simplesmente decidem ter um filho sozinhas.
Os homossexuais, eram uma aberração, tinham que se “esconder no armário”. Hoje a união homo afetiva é uma realidade aceita pela lei, os direitos dos casais homossexuais é reconhecido. E não somente pelo estado, mas até uma igreja endossou este reconhecimento. A Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, na figura de seu bispo primaz Dom Maurício.
Mais presente ainda. A partir do próximo ano as sacolinhas plásticas usadas para colocar compras no comércio serão coisa do passado em São Paulo.
Temos muito pela frente para construir uma sociedade justa e sustentável, mas, passo a passo, estamos no caminho. Caímos, tropeçamos, mas continuaremos a jornada.
Da mesma forma que eu não puder ver a bela festa que foi a manifestação contra Belo Monte na av. Paulista no último dia 20 de maio, também acredito que não estaremos vivos quando esta construção humana chegar a sua plenitude. Mas fico feliz de poder ter palmilhado um pequeno trecho desta estrada.
Não desanimemos, a batalha é dura e, às vezes pode parecer inglória.
Mas vale a pena.
Parabéns a todos que estiveram lá. Parabéns a todos que se juntarão à nós daqui para frente.
Nunca é tarde.